Bolsonaro ‘ignora’ coronavírus em agenda oficial

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Levantamento do GLOBO mostra que somente 7% dos compromissos tiveram relação direta com pandemia desde março

No momento do maior patamar diário por mortes pelo novo coronavírus, o assunto desapareceu da agenda do presidente Jair Bolsonaro. Os compromissos relacionados à pandemia são cada vez menos frequentes e compõem só 7,4% das agendas de Bolsonaro desde março, segundo levantamento do GLOBO.

De um total de 632 compromissos, 47 tinham uma relação direta com a pandemia, como encontros com os ministros da Saúde ou com médicos e entidades da área. Em março, foram 10 agendas desse tipo. O número passou para 25 em abril, mas caiu para seis em maio, mesmo número de de compromissos junho até a última sexta-feira.Um exemplo disso é o fato de que o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, no cargo desde 15 de maio, só foi recebido duas vezes por Bolsonaro, de acordo com a agenda. Seu antecessor, Nelson Teich, que ficou 29 dias no cargo, teve 10 compromissos. Já Luiz Henrique Mandetta esteve nove vezes com Bolsonaro em um mês e meio.

Nesse período, Bolsonaro também recebeu outras autoridades ligadas à área da Saúde, como o diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres (12 vezes); o deputado federal Osmar Terra (seis vezes), que é médico e atua como um consultor informal do presidente; a médica Nise Yamaguchi (quatro vezes), que já foi cotada para assumir o ministério; e representantes de grupos como o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Médica Brasileira (AMB). Algumas destas pessoas participaram da mesma agenda, o que conta como apenas um compromisso no levantamento. 

Bolsonaro também fez duas viagens relacionadas ao coronavírus: visitou as obras de um hospital de campanha, em Águas Lindas (GO), em abril, e voltou ao local quase dois meses depois para inaugurá-lo.

Enquanto não dava prioridade para a pandemia, Bolsonaro encontrou espaço para outros compromissos. No dia de 10 de junho, por exemplo, participou de uma reunião com os secretários de segurança de todo o país — algo que não fez com os secretários de Saúde. Também há disponibilidade para reuniões com empresários: foram ao menos cinco, entre encontros presenciais e por videoconferência.

Nos fins de semana, o presidente adotou como prática fazer passeios por Brasília e pelo entorno, quase sempre sem registro na agenda. Nesse período, já foi de helicóptero para Goiás para, entre outras coisas, visitar um shopping e um posto de gasolina, acompanhar operações da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e visitar uma base do Exército, onde assistiu o disparo de foguetes.

Em Brasília, já visitou um açougue, um farmácia e uma padaria, entre outros pontos, além de participar de ao menos seis manifestações, muitas delas com pautas antidemocráticas. Bolsonaro argumenta que faz isso porque precisa estar “perto do povo”. Em todas esses passeios, é comum que o presidente cause aglomerações, o que contraria as recomendações. Ele também raramente usa máscara.

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