Bolsonaro tenta buscar equilíbrio

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O presidente Jair Bolsonaro caminhará na corda bamba pelos próximos meses. Terá que equilibrar o comportamento de militantes, a insatisfação da população com a maneira que ele lida com o novo coronavírus e as investigações contra as fake news. Tudo isso em vias da vindoura ventania da crise econômica provocada pela pandemia, que já começa a balançar a linha.

No cenário de instabilidade, qualquer deslize poderá levar Bolsonaro à perda de poder. Nessa hipótese, podem convergir para um mesmo ponto o inquérito das fake news do Supremo Tribunal Federal (STF), as investigações da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito com o mesmo tema e o julgamento da cassação da chapa de Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Sob fogo, o presidente ainda conta com o apoio do guarda-chuva do Centrão para se equilibrar, mas precisou maneirar no discurso. Especialistas alertam, porém, para o fato de que a política trabalha com janelas de oportunidade e os parlamentares desse bloco não pretendem acompanhar o presidente se ele não mantiver o equilíbrio. Há, também, indícios de que Bolsonaro e o primeiro escalão do governo compreendem os riscos.
Um desses indícios foi a transmissão, ao vivo, da 34ª reunião do conselho de governo, com o presidente da República, o vice, Hamilton Mourão, e os chefes de pasta, que se portaram de forma pragmática, diferentemente do encontro de 22 de abril, que contou com ataques à Suprema Corte, palavrões e até sugestões para que o governo aproveitasse a pandemia para flexibilizar o desmatamento da Amazônia. Outro forte sinal é a recriação do Ministério das Comunicações.
Cientista político, mestre em sociologia política e doutor em Direito, o professor Geraldo Tadeu Monteiro, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), avalia que a variável técnica tende a seguir o caminho jurídico. Mas a política é que dá o tom da batida e que permitirá, ou não, a convergência dos inquéritos e do julgamento.

Sustentação

O especialista explica que o grau da sustentação do governo dá a medida do uso da variabilidade jurídica. “O governo Collor caiu por falta de decoro. A Dilma ainda resistiu por dois anos. Mas o Collor, que não tinha sustentação política no Congresso, que brigava com empresários, confiscou a poupança, tinha tudo contra. Foi pedir manifestação e o tiro saiu pela culatra. O governo Bolsonaro não chegou nesse ponto. Ele não tem base sólida de apoio no Congresso, mina a base popular, se indispõe diretamente com os ministros do Supremo, e tem se esforçado para isso. Esses vetores caminham juntos, mas o que define a periculosidade é a sustentação do governo”, detalha.
Geraldo Tadeu argumenta que o presidente tem perdido popularidade por conta de como se comporta em relação à pandemia. E, ao ver a base se estreitar, o mandatário cria conflitos para mobilizar apoiadores. “O bolsonarismo é movido a conflitos. Mas, se não tiver um uso controlado da conflituosidade, você vira refém dos grupos mais radicais dentro do espectro político”, avalia.

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