Manaus pode ter prejuízo milionário com terremotos induzidos por extração de gás

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Dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP) indicam que, ao longo de uma grande faixa de terra localizada entre Manaus (AM) e Macapá (AP), há reservas de gás natural com grande potencial econômico – e o governo federal já manifestou interesse em incentivar a exploração dessas jazidas.  

Por isso, pesquisadores da Unicamp, da Universidade de Córdoba (Argentina) e da Universidade Johns Hopkins (EUA) estão alertando para um perigo inesperado da exploração desse combustível fóssil: terremotos artificiais, gerados acidentalmente pela atividade humana. 

A palavra “terremoto” geralmente remete a um fenômeno natural imprevisível, desencadeado pelo movimento de placas tectônicas, mas já se sabe a décadas que certos métodos de exploração de recursos naturais armazenados no subsolo podem acabar em um balanço indesejável nas cidades próximas. 

Para entender o fenômeno, é preciso primeiro compreender o processo de extração de gás natural. Primeiro, os profissionais perfuram o solo até alcançar uma rocha sedimentar chamada de folhelho. Tente falar rápido: folhelho, folhelho, folhelho… 

Rocha sedimentar, vale lembrar, é um tipo de rocha formado pelo acúmulo e posterior compactação de pequenos fragmentos (pense em pó, areia, pedrinhas e até animais mortos, que podem se fossilizar quando são enterrados acidentalmente nessas circunstâncias). Petróleo e gás natural se formam justamente em bacias que passariam milhões de anos acumulando sedimentos, como resultado de uma lenta deposição de de matéria orgânica.

Quando a perfuratriz alcança o folhelho, ela muda de direção. Pense que, até agora, havia um grande duto descendo na vertical. A partir daqui, os dutos começam a caminhar para os lados, na horizontal. O gás fica retido em pequenas cavidades nas rochas, para forçá-lo a sair, utiliza-se água sob pressão.

Até aí, sem grandes complicações. Acontece que, conforme sai o gás, a água também volta, mas ela vem contaminada e não pode ser reutilizada. Também não é nem um pouco recomendável descartá-la no ambiente, por motivos óbvios (principalmente no caso da Amazônia). 

A solução é perfurar outra parte do solo para depositar a água. O furo é extremamente profundo: vai além da altura em que estava o gás e também ultrapassa os lençóis freáticos, podendo alcançar as chamadas falhas neotectônicas.

Não se confunda: não estamos falando dos vãos entre as placas tectônicas, que estudamos nas aulas de geografia do Ensino Médio, mas sim de fissuras pequenas, que surgiram posteriormente na história da Terra, e que se localizam a uma profundidade maior. 

É aí que acontece o abalo. Luiz Vieira, pesquisador da Unicamp e porta-voz do estudo, explica:  “Imagine que você está com suas duas mãos, uma em cima da outra, e adiciona água. As mãos relaxam e escorregam. Quando as placas escorregam, ocorre o terremoto induzido”.

Claro que isso não é uma exclusividade brasileira. Na verdade, os primeiros relatos sobre terremotos induzidos vem da década de 1960 em Oklahoma, nos EUA. Vieira explica que, nos últimos cinco anos, os americanos enfrentaram uma forte onda de abalos devido a liberação exacerbada de extração pelo governo – mas que, neste ano, o país reviu seu processo e conseguiu reduzir o acontecimento do fenômeno. 

O problema de Manaus é que, diferentemente de algumas regiões dos EUA, a cidade nunca enfrentou um terremoto (nem artificial, nem natural). Os cientistas estimam que, sem a implementação de políticas públicas para regular o processo de extração, os terremotos constantes na região metropolitana poderiam causar R$ 189 milhões de prejuízo todos os anos. 

O primeiro passo para evitar esse incômodo é implantar o zoneamento, ou seja, demarcar o local que será feita a extração e analisar se ele está excessivamente próximo de cidades.

O segundo é o traffic light system (sistema de semáforo, em tradução livre), que cria alertas para a sismografia da região (verde, amarelo e vermelho). Assim, se a terra começar a se mover além de um limiar seguro, é emitido um alerta para parar até que haja a estabilização.

“Você não precisa passar pelo que os EUA passaram, de explorar e só depois criar políticas públicas. Antes que comece a exploração, já teremos as políticas públicas que vão reduzir as chances de que algo grave aconteça”, diz Vieira. Essas duas medidas, porém, só aumentam a segurança se sua implantação for fiscalizada de perto pelo Estado. Continua após a publicidade

Está rodando no Amazonas o projeto de lei nº 153/20, que autoriza empresas privadas a realizar a exploração (antes, ela era monopólio do governo). O projeto foi aprovado na câmara, mas vetado pelo governador Wilson Lima. 

Vieira explica, por exemplo, que o traffic light system deve ser aplicado por uma entidade sem relação com o processo de produção do gás natural. Quando o órgão regulamentador é o mesmo que extrai o produto, pode ocorrer de que ele ignore possíveis sinais, considerando-os ruídos, para priorizar a continuidade dos trabalhos.

O pesquisador usa o exemplo do desastre de Brumadinho, em Minas Gerais, em que “todo mundo já tinha entendido que havia algo estranho, mas falavam que era só uma coisinha – que acabou se tornando um acidente catastrófico”.

Com informações Revista Super Interessante

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