Teich defende revisão da política de isolamento e prevê “restabelecimento da normalidade” em 2022

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O médico oncologista e ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, voltou a criticar a condução da crise provocada pela pandemia da Covid-19 e a ausência de uma figura técnica à frente da pasta que deixou em maio do ano passado. O profissional alega que, no curto espaço de tempo em que permaneceu no cargo, percebeu que não teria o respaldo necessário para colocar em prática as ideias que tinha para o setor.

Em entrevista ao programa Agora, da Rádio Guaíba, nesta terça-feira, Teich afirmou que a gestão em saúde no Brasil não acompanhou os avanços da ciência ao longo dos anos. Por isso, propôs cinco passos para frear o avanço da pandemia da Covid-19: testagem em massa, incentivo ao isolamento, revisão das práticas no cuidado dos pacientes, visitas a todo o Brasil e acesso à informação.

“O ideal é você conseguir mapear onde você tem alguns casos e isolar aquele lugar. Agora, quando a doença já espalhou, você tem que parar tudo. Uma coisa importante nisso, inclusive, é em relação a quando a vacina começar a funcionar e os casos começarem a cair. Aí vai ficar mais fácil. Se você deixar ter milhares de casos, fica praticamente impossível você controlar qual a rede de contatos”, opina Teich.

O plano tinha como inspiração casos bem sucedidos de controle na transmissão da doença, como a Coreia do Sul e a Austrália. Para o ex-ministro, o Brasil até realizou testes em uma média aceitável, na taxa por milhão de habitantes, mas falhou nas práticas de isolamento. Um dos fatores apontados por Teich é a falta de infraestrutura sanitária na periferia das grandes cidades.

“Movimento anti-vacina não deve atrapalhar”

O médico comemorou o fato do ensaio clínico da Universidade de Oxford, que chegou ao país durante a sua gestão, tenha contribuído para o início da imunização da população contra a Covid-19. “Naquela época, aquilo teve pouca repercussão. As pessoas não percebiam a importância da vacina. Eu, na verdade, trouxe a possibilidade de um estudo para o Brasil”, lembra Teich.

Para o ex-ministro, o movimento anti-vacinas – que, recentemente já prejudicou a taxa de proteção quanto a outras doenças, como a malária – vai se mostrar forte nos próximos meses. Entretanto, Nelson Teich avalia que a resistência não deve impedir a conquista da imunização dos brasileiros – que só deve apresentar resultados práticos, para a retomada da normalidade, no ano que vem.

“Você pode ter no Brasil uma chegada ‘pingada’ da vacina, que vai dificultar qualquer planejamento. O movimento anti-vacina vai existir, e existe em qualquer lugar, mas eu não acredito que seja um motivo que inviabilize um programa que vá buscar a imunidade, garantindo o retorno do nosso dia-a-dia. É impossível saber quando isso vai voltar. Eu acho muito difícil que seja antes de 2022”, ressaltou o médico.

Nelson Teich ficou menos de um mês à frente do Ministério da Saúde. À época, em pronunciamento, afirmou que deu o melhor de si e que “não é simples” estar à frente da pasta nesse período de pandemia de Covid-19. Ele também ressaltou que não aceitou comandar o ministério pelo cargo em si, mas sim para ajudar as pessoas. Dias depois, criticou a pressão exercida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na pasta.

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