Bolsonaro diz que países que criticam política ambiental brasileira importam madeira ilegal

Compartilhe

O presidente Jair Bolsonaro participou, nesta terça-feira (17), de uma reunião virtual da cúpula do Brics, grupo formado por países emergentes. Bolsonaro disse que países que criticam a política ambiental brasileira importam madeira extraída ilegalmente, mas não deu detalhes.

Era para ser no mês de julho, na Rússia, mas a reunião acabou sendo adiada por causa da pandemia. E, nesta terça, os líderes dos cinco países do Brics, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, se encontraram de forma virtual. A Rússia presidiu o bloco por um ano e, agora, transferiu a tarefa para a Índia.

Um dos principais assuntos do encontro foi o enfrentamento à pandemia. Bolsonaro foi o quarto a falar. Começou dizendo que o Brasil está comprometido na busca de uma vacina segura e eficaz, e logo mudou para emissão de carbono, e chamou de “injustificáveis ataques” as cobranças que o Brasil recebe sobre preservação da Amazônia. Afirmou que vai divulgar uma lista de países que criticam o desmatamento da floresta, mas importam madeira ilegal do Brasil.

“A nossa Polícia Federal desenvolveu agora a utilização de isótopo estável, tipo DNA, para permitir a localização da origem da madeira apreendida e exportada. Então, revelaremos nos próximos dias os nomes dos países que importam essa madeira ilegal nossa através da imensidão que é a região amazônica, porque daí, sim, estaremos mostrando que estes países, alguns deles que muito nos criticam, em parte têm responsabilidade nessa questão”, disse Bolsonaro.

Nesse momento, caiu o sinal de transmissão. Bolsonaro ironizou, dizendo que a falha foi coincidência porque estava falando da Amazônia. “Creio que, depois dessa manifestação, que interessa a todos, porque não dizer no mundo, essa prática diminuirá e muito nessa região”, afirmou Bolsonaro.

Dados do Inpe mostram que de janeiro a outubro de 2020 foram quase oito mil quilômetros quadrados de área sob alerta de desmatamento. O mês passado foi o pior outubro da série histórica, que começou em 2015.

Outro tema debatido no encontro foi a importância dos organismos internacionais.

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, defenderam mudanças no Conselho de Segurança da ONU e na Organização Mundial do Comércio.

O presidente da China, Xi Jinping, pediu apoio à Organização Mundial da Saúde, que, segundo ele, tem papel crucial na resposta internacional aos problemas de saúde pública. Bolsonaro, ao contrário, voltou a criticar a OMS.

“Desde o início, critiquei a politização do vírus e o pretenso monopólio do conhecimento por parte da OMS, Organização Mundial da Saúde, que necessita urgentemente sim de reformas. É preciso ressaltar que a crise demonstrou a centralidade das nações para a solução dos problemas que hoje acometem o mundo. Temos que reconhecer a realidade de que não foram os organismos internacionais que superaram os desafios, mas sim a coordenação entre os nossos países”, afirmou Bolsonaro.

No fim do encontro, os mandatários do bloco firmaram um documento. Reconheceram a necessidade de um sistema de organismos multilaterais “revigorado e reformado, incluindo a ONU, a OMC, a OMS, o FMI e outras organizações internacionais”. Reiteraram “o chamamento por reformas dos principais órgãos das Nações Unidas”.

E ressaltaram “o papel da ampla imunização contra a Covid-19 na prevenção, contenção e interrupção da transmissão de maneira a pôr fim à pandemia, assim que vacinas seguras, de qualidade, eficazes, eficientes, acessíveis e econômicas estiverem disponíveis”.

E reiteraram o “compromisso com a implementação do Acordo de Paris, assinado em 2015 com o objetivo de reduzir o aquecimento global”.

O prazo para o Brasil renovar seu compromisso com o Acordo de Paris termina em dezembro. Segundo o Itamaraty, o governo ainda está discutindo o que fazer.

Faz parte da diplomacia buscar algum consenso nas declarações. E isso foi feito no documento final. Embora tenha assinado, em nenhum momento Bolsonaro defendeu os organismos multilaterais. Pelo contrário, criticou a OMC e a OMS. Segundo analistas, a reunião desta terça expôs de forma clara o desalinhamento do discurso do presidente Bolsonaro com os demais integrantes do Brics.

“A política do governo Bolsonaro tem sido de desconstruir a política da agenda externa, desconstruir a agenda ambiental, desconstruir as relações de cooperação, do multilateralismo do qual o Brasil, a duras penas, ajudou a construir e a constituir, e do qual o Brasil sempre se beneficiou em grande parte”, avaliou Roberto Goulart, professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *